Não sei como esta ferida ficou assim. Sei que não consigo deixar de mexer nela, de a contemplar obsessivamente, embora todos os dias me tente convencer que ela não é importante. Coço, esfrego e fico a remoer na sua génese, no seu porquê e no seu propósito. Não faz crosta e não sara porque não deixo, tanto de uma forma inconsciente como masoquista e solitária, de quem procura sofrer para sentir algum significado na sua vida.
Não sei à quanto tempo vagueio aqui, sozinho e fugidio, observando o mundo à distância, protegido com este manto impenetrável que fui tecendo na minha solidão dia após dia. Talvez me explique o porquê de ter feito isto, pois de certo que me responsabilizo por tê-lo feito.
Gostava que me ouvisses, mas não falo. Devia gritar.
Gostava que me conhecesses e percebesses porque sou e estou assim, mas não falo. Devia gritar.
Gostava que me sentisses, que me tocasses mas, não te procuro, faço o inverso, fujo e escondo. Devia te Amar.
Estou preso nesta armadilha de estar só, de olhar no espelho todos os dias quando me levanto e de sentir o vazio da tua ausência reflectido. Sinto a falta da ânsia de saber que te vou ver, do calor que me davas, preenchendo-me da força necessária a tornar os dias diferentes. Eles não facilitam, cobram me cada milímetro da tua ausência, surgindo a cada esquina da minha memória lembrando-me do fraco que sou. Impiedosamente escutam os murmúrios do meu coração, troçando e rindo descaradamente por saberem que por não estar anestesiado os posso ouvir.
Penso em quem estará contigo aí agora.
Não te conheço. Mas sei quem és ou vais ser. Existes de uma forma inconfundível no meu imaginário e na realidade, és o futuro ou o passado, talvez até mesmo o presente mas, certamente percebes o que escrevo e sinto aqui, em palavras difusas, amargadas de sentimentos complexos.
És parte de mim, a minha cara-metade e, parecida comigo completas-me. Tens uma perspectiva diferente mas compreendes o que faço e porque o faço. Sabes ver para além dos actos, conheces-me só pelo olhar, comunicando de uma forma invisível, intensa e íntima. É isso, íntima. Ligada a mim intimamente como se de um fio de nylon invisível, elástico e inquebrável nos segurasse, a mim, a ti e a nós.
Não me imagino a envelhecer a teu lado, vejo te a viver comigo…
Estou à tua espera.
O toque. Não me cansarei de te sentir, de te inspirar em cada bocadinho da minha pele como se te consumisse por inteira apaixonadamente. E tu a mim, fazendo o tempo parar à nossa volta, não de uma forma lamechas mas sim pura, única e intransmissível.
No teu corpo desnudo deitado sobre a cama imagino os teus longos e sedosos cabelos a cairem sobre o teu pescoço, pedindo um beijo e que te Ame novamente.
Quero te proteger.
És todas as que pintaram de alguma forma o meu coração, as que desejei e as que vão ocupar o teu legítimo lugar até apareceres. Não és nenhuma delas por inteiro, apenas fragmentos seus vivos, curiosos e caprichosos que me agradam e constroem esta ideia que tenho e construo diariamente de ti. Uma mera quimera para me entreter a solidão. É fácil Amar assim, desconhecendo-te à distância.
És algo que nunca terei, não por não existires mas por eu não acreditar que estás aí e que, no mesmo momento que te procure, tu me encontres.
Ver-te desvanecer, faz transparecer o meu sofrimento. E a ferida aumenta.

Devo dizer que este é um belo texto, e que a tua qualidade e nível de escrita (mesmo isto sendo escrito há algum tempo) está claramente superior à minha, e digo isto honestamente sem qualquer tipo de prurido (apropriação :z) e falsa humildade. Não quero sequer ter a presunção de fazer uma análise do texto a nível do seu significado. Limitei-me a desfrutar e a ter prazer a ler um texto com qualidade literária, esteticamente bom e com bastante emoção (sentida ou romantizada\fingida ao estilo Pessoano poeta é um fingidor uererer)
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