Me encontro a olhar para o ecrã à procura de uma ideia, de um tópico, de algum fio condutor que me permita escrever um texto. Um vazio, um bloqueio de pseudo-escritor. Este vazio que dura há uns minutos desemboca numa tentativa de falar da minha relação com a escrita ao longo da minha vida. Começo por algo indissociável da escrita, a leitura.
A minha grande influência foi o meu pai, que desde que eu era pequeno insistia que eu lesse, e essa insistência durou ao longo do resto da minha vida em comum com ele. Comecei por ler livros de banda desenhada da Disney com grande avidez e durante vários anos ( sem saber precisar a idade, mas talvez entre os 8,9 anos e os 12,13). Lembro-me de gostar particularmente do Zé Carioca por jogar à bola e ser meio coirão, sentia empatia pelo azar do Pato Donald e raiva da sorte do Gastão, agradavam-me as invenções do professor Pardal. Não achava particularmente apelativos o Pateta e o Mickey, mas lia com prazer as histórias deles, gostando dos irmãos Metralha e do Mancha Negra (Já sei que o teu preferido era o Tio Patinhas $). Ao falar nestas personagens sinto uma nostalgia positiva, daquelas que não magoa nem angustia. Considero-me uma pessoa exageradamente nostálgica.
A seguir a esta fase (que terminou por influência ou do meu pai ou de algum professor, pois eu tinha que começar a ler outro tipo de livros), "aventurei-me" nos livros da colecção "Uma Aventura", lembro-me perfeitamente que os 2 primeiros livros que comprei foram : "Uma Aventura na Cidade o nº1 e Uma Aventura na Escola o nº8". Gostei bastante e antes de ter outros livros da colecção reli-os. Durante alguns anos comprei todos os livros, seguia cada livro com enorme expectativa e prazer, ainda os tenho e se não me engano tenho uns 30 e tal. Entretanto, e novamente, fui coagido a dar um salto na complexidade da literatura e abandonei a Ana Maria Magalhães, o António Fagundes e a nossa actual ministra da educação e saltei para os livros obrigatórios do ensino secundário (pelo meio ainda li um ou dois livros do clube das chaves, não me recordo se gostei ou não). A partir daí os meus hábitos de leitura foram muito irregulares e escassos e só voltaram a estabilizar por volta dos 24 anos. Mas foi sempre uma paixão, um deleite enorme, mesmo quando a ataraxia atacava, e deixava de lado as palavras impressas.
O prazer que sempre tive na leitura, levou com que o bichinho da escrita começasse a nascer e a crescer, até que se tornou num sonho, um sonho esquisito. E digo esquisito, porque a minha relação com a escrita não é nem normal, nem digna de quem a mete no mesmo saco que a palavra sonho ou objectivo. Algures a partir dos 15,16 anos eu comecei a pensar que talvez um dia poderia ser escritor, que o meu sonho profissional poderia passar por aí. Sentia um gosto tremendo pela leitura e sentia que podia ter algum jeito, alguma vocação. O sonho manteve-se bem aceso durante vários anos, até que se começou a desvanecer um pouco a partir dos 24/25 anos, apesar de continuar existente. Quando me refiro à estranheza\esquisitice, a premissa principal é a seguinte : quem sonha ser escritor, escreve, treina, esforça-se, tem prazer a escrever, e eu ao longo destes 13 ou 14 anos escrevi muito pouco, pior que isso, esforcei-me muito pouco, raríssimas foram as vezes sequer que eu me meti à frente do computador ou de um papel a tentar escrever qualquer coisa, fosse o que fosse. Quando penso nisto, eu próprio fico em dúvida, o que será? Será medo de perceber que afinal não tenho jeito ou estofo\paciência, será que sou simplesmente preguiçoso? A verdade é que chego aos 29 anos e o imobilismo tem pautado a minha vida, tenho visto as coisas passarem, e não há grito de revolta que me acorde. Vale-me a esperança, é amanhã, amanhã sim eu começo a escrever, a fazer, a actuar, ou daqui a uns dias talvez, talvez depois da passagem de ano, novo ano, vida nova. Ou então depois das férias do verão, no novo ano escolar. Um dia o amanhã acabará
Inícios, recordações, sonhos e reflexões...
ResponderEliminarTudo isto surgiu-te, creio eu, de um devaneio proveniente de uma revolta originada do bloqueio, criando posteriormente um diálogo interior entre ti e as tuas recordações, tornando-se por fim, num desabafo de uma insatisfação imposta interna e externamente.
Quem não se sentiu assim?Aliás, quem não se sente assim? Só quem não se coloca em causa e quem não tem como objectivo pessoal crescer, quer tal passe por fazer algo simples ou complexo como reflectir e escrever...